DEU NO PODER360 - SEM ESTRUTURA, RONDÔNIA É O ESTADO COM MAIS MORTES POR MILHÃO POR COVID

 

 

Rondônia soma 6.027 vítimas da covid-19 desde o início da pandemia. O número absoluto pode não parecer alto, mas faz do Estado a unidade da Federação com mais mortes por milhão de habitantes no Brasil, já que a população rondoniense é pequena. A taxa chegou a 3.320 neste sábado (19.jun.2021). A média brasileira é de 2.347.

Se fosse um país, Rondônia ocuparia o 2º lugar no ranking de mortes por milhão mundial, ficando atrás apenas do Peru.

A condição de unidade federativa com maior número de mortes proporcionais é o resultado da conjuntura da precária estrutura hospitalar, o isolamento geográfico e a baixa densidade demográfica, fazendo com que intervenções para controle de crise sejam mais complexas e variações nos índices de transmissão, ocupação de leitos e óbitos tenham mais impacto nos números. Soma-se a isso um plano falho das medidas de prevenção ao coronavírus, que ajudariam consideravelmente no controle das taxas epidemiológicas.

“Rondônia hoje é o estudo de caso de números absolutos não gritantes, mas que preocupam pela proporcionalidade e pela remoção dos pacientes. Os Estados no entorno também estão passando por uma situação complicada. Uma questão importante é pensar que a população é menor do que outros Estados. Em casos absolutos pode ser pouco, mas repercute bem”, explica Raphael Guimarães, pesquisador do Observatório Covid-19, da Fiocruz no Rio de Janeiro.

Ao longo do 1º ano de pandemia, a queda na ocupação de leitos era quesito fundamental para a flexibilização das medidas de restrição à circulação de pessoas. Os indicadores, no entanto, logo variavam e o Estado voltava a registrar aumento no número de casos de covid-19.

“Na 2ª onda as coisas abriram muito rápido em um momento em que tínhamos 100% de ocupação, mas não havia fila de espera para leito. A abertura rápida, sem transmissão controlada, fez com que a nossa queda não fosse importante”, afirma a pneumologista Ana Carolina Terra, do Cemetron (Centro de Medicina Tropical de Rondônia), hospital referência em doenças infectocontagiosas.

O Estado passa hoje por uma estagnação da pandemia considerada perigosa. Em março e no início de abril deste ano, segundo o pesquisador Raphael Guimarães, houve um pico considerável no número de casos e mortes por covid em Rondônia, chegando a cerca de 50 vítimas por dia. Esse período foi seguido por uma tendência de queda, mas com oscilações. Hoje, em média, 15 pessoas morrem por dia no Estado. Os números dialogam com os relatos da pneumologista Ana Carolina Terra sobre o seu trabalho na linha de frente.

“Houve uma escassez de sedação, com uma mortalidade alta nos meses de março e abril, com pico 3 vezes maior do que a 1ª onda. Upas e hospitais particulares chegaram a anunciar que iam fechar porque não havia mais capacidade. Tivemos um pico de pacientes graves com uma certa ineficiência de assistência naquele momento, provocada, em boa parte, pela alta nesse número. Eu estava intubando 3 pacientes por dia, com mais leitos ofertados do que na 1ª onda”, relatou Ana Carolina.

O Estado, assim como outros da região, tem uma centralização de serviços na capital, Porto Velho, que torna-se a referência dos municípios vizinhos para tratamentos mais graves e especializados. A distância entre as cidades, que têm baixa capacidade de atendimento local, e limitações de transporte e treinamento impactam na taxa de mortalidade dos pacientes.

Nesse cenário, intervenções logísticas em momentos de crise são mais complicadas. Somado a isso há o isolamento geográfico do próprio Estado e a lotação e crise nos seus vizinhos.

“Temos distritos a mais de 200 quilômetros de Porto Velho que só têm um postinho de saúde. Você transferir um paciente grave de ambulância não é o ideal. Isso impacta na mortalidade do paciente, principalmente na covid, que tem uma evolução rápida. Em alguns locais você tem uma ambulância que precisa levar o paciente e só 2 médicos, e 1 precisa acompanhar, desfalcando o atendimento no local”, relata o médico clínico Sérgio Besano, também do Cemetron.

Na capital a capacidade também é limitada. A médica Ana Carolina precisou remover do Estado alguns pacientes por falta de leitos. A estratégia era tirar de Rondônia quem ainda estava estável, mas tinha o risco de piora.

“Tivemos ajuda do Exército e da Força Nacional. A gente transferia os pacientes que poderiam precisar da UTI, pensando também na qualidade de assistência do atendimento”, conta Ana Carolina.

ISOLAMENTO E VACINAÇÃO

As medidas de isolamento social foram aplicadas de forma parcial no Estado. Segundo Juan Miguel Villalobos, pesquisador da Fiocruz de Rondônia, o enfrentamento à pandemia foi “relapso”. Um exemplo é o novo decreto, assinado na 5ª feira (17.jun.2021) pelo governador Coronel Marcos Rocha (PSL), autorizando a realização de eventos com até 999 pessoas.

De acordo com o pesquisador, as medidas mais rígidas foram implantadas de maneira precoce, ainda no início da pandemia, em março de 2020, antecipando o desgaste nas estruturas do Estado e na população.

“ O distanciamento social foi frouxo. A consciência do Estado e da população foi no 1º e no 2º mês de pandemia, com medidas muito rígidas, mas precoces. O governo fala que tentou de tudo e nada adiantou, então optaram por relaxar. O distanciamento social hoje é praticamente zero. Isolamento não é você fechar tudo por completo, é educação contínua de como manter o distanciamento e a segurança”, afirma o pesquisador.

Na periferia da capital, onde a fiscalização é mais baixa, as aglomerações acontecem de maneira mais frequente e intensa. “Na parte central você viu locais fechados, mas na periferia isso não aconteceu. Lá, a fiscalização é mais baixa, não se vê direito o que acontece e as pessoas acabam não respeitando as medidas de proteção”, diz o médico Sérgio Besano.

O pesquisador da Fiocruz de Rondônia diz, ainda, que houve baixo investimento na ampliação da estrutura para vacinar a população desde o início da campanha de vacinação.

“Quando se quer aumentar a cobertura vacinal, é preciso investir em postos de vacinação, insumos, doses e pessoal. Sem poupar nenhuma esfera de governo, o que vemos é que eles falharam em tudo isso. Temos até hoje os mesmos locais de vacinação. Não ampliamos essa cobertura. Em locais como a Europa as pessoas estão se vacinando em shopping, mercado. Onde você chega tem um local para vacinação. Aqui, tem fila de 4 horas que faz a pessoa desistir do imunizante”, afirma Juan Miguel Villalobos.




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