Deputado Lúcio Mosquini acusado de montar tenda do golpe em Brasília



A ASSESSORIA de um dos vice-líderes de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados deixou vazar num grupo de WhatsApp planos para a montagem de um acampamento de ruralistas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, durante os protestos marcados pela extrema direita para 7 de setembro. A mensagem confirma a intenção dos bolsonaristas de coagir ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, e parlamentares em prol das pautas antidemocráticas do presidente.

Sigmar Rodrigues Nunes, assessor do deputado Lúcio Mosquini, do MDB de Rondônia, enviou na segunda-feira, 23 de agosto, uma mensagem a um grupo de servidores da Câmara explicando que o deputado pretendia instalar uma “tenda no canteiro central da Esplanada no dia 07 de setembro”. Nunes pedia, então, ajuda aos colegas para conseguir uma autorização para montar a estrutura. Ele foi orientado a procurar o Governo do Distrito Federal, o GDF.

A mensagem enviada por Sigmar Nunes: uma tenda na Esplanada dos Ministérios para abrigar participantes dos atos golpistas, a pedido do chefe.

Na mensagem, Nunes não especificou a quem se destinava o acampamento, mas o deputado Mosquini me deixou claro que a intenção era abrigar seus eleitores ruralistas. No último sábado, 21 de agosto, o Interceptrevelou que latifundiários alinhados a Bolsonaro estão financiando as manifestações marcadas para 7 de setembro, em articulação com políticos ligados ao governo.

Estimulada pelo presidente ao longo das últimas semanas com frases como “estamos sendo sufocados e quem está nos oprimindo é uma minoria”, a extrema direita prepara atos de tom golpista para o feriado da Independência do Brasil. O objetivo é promover a “independência do governo Bolsonaro” e pressionar ministros do STF a recuarem de ações da corte contra Bolsonaro e seus apoiadores da milícia digital. Segundo a Procuradoria-Geral da República, a PGR, há planos de invasão do prédio do Supremo, na Praça dos Três Poderes, localizada num dos extremos da Esplanada.

Mosquini é um político ruralista em seu segundo mandato, que se tornou vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara em setembro de 2020. Questionado sobre o uso da estrutura de seu gabinete para ajudar numa manifestação de caráter golpista, ele não fez rodeios para admitir seu apoio aos ruralistas participantes.

“São grupos de produtores rurais vinculados ao meu mandato lá em Buritis, em Rondônia”, me disse o deputado. “Eles fizeram um pedido para saber onde eles podem acampar, onde podem se instalar. Fiz de forma oficial, solicitei [ao GDF] informações”.

O político tem bom relacionamento com o Planalto e é um dos beneficiados por verbas do Tratoraço, um dos desdobramentos do orçamento secreto, criado pelo governo Bolsonaro para distribuir dinheiro a deputados aliados e revelado pelo Estadão.

“Não incentivei de forma nenhuma [os atos], mas é a minha base aliada lá do estado de Rondônia. O camarada pede uma assessoria para o nosso gabinete perguntando onde eles podem se instalar. Com a minha assessoria ou sem a minha assessoria, eles virão a Brasília. Não acho que estou incentivando, não, mas tenho esse compromisso de atendê-los. Quando vou na cidade deles, eles também me recebem, me atendem”, justificou-se.

A atuação do deputado vai contra o juramento que fez ao tomar posse do mandato, com base no Regimento Interno da Câmara, em que ele prometeu “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro e sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”. O código de ética da Câmara diz, ainda, que é dever dos parlamentares “zelar pelo prestígio, aprimoramento e valorização das instituições democráticas e representativas e pelas prerrogativas do Poder Legislativo”.

Informações sobre protestos e ocupação do espaço público em Brasília ficam disponíveis no portal do GDF, o que torna desnecessária a intermediação de um parlamentar. Ainda assim, Mosquini confirmou que funcionários de seu gabinete, pagos com dinheiro público, enviaram ofício para o GDF, em busca de informações para montar o acampamento. O Distrito Federal é governado por Ibaneis Rocha, do MDB, um bolsonarista arrependido que nos últimos dias assinou uma carta em defesa do STF.

Eu pedi a Mosquini acesso ao documento enviado ao GDF. Durante a entrevista, o deputado prometeu que enviaria o documento, mas não o fez. Reforcei o pedido por WhatsApp, mas não tive retorno.

O político já foi preso em 2014, durante a operação Ludus, do Ministério Público Estadual de Rondônia. Ele era suspeito de fraude em licitação de contratos do Departamento de Estradas e Rodagens, que dirigia à época. A defesa de Mosquini negou irregularidades e considerou que a prisão, que durou 10 dias, “não deve ter passado de algum equívoco”. Ele foi solto por decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Também confirmei que a deputada federal bolsonarista Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, se movimenta para encorpar os atos na capital paulista. Zambelli participa de grupos de WhatsApp que discutem as manifestações, trajetos e equipamentos que serão utilizados no protesto, como caminhões e faixas.

Procurei a assessoria da deputada. Eles não se manifestaram sobre os atos e sua coordenação. Responderam apenas que “Carla Zambelli apoia e participa de atos dos quais ela concorda com a pauta e que sejam pacíficos e democráticos”.

 

A mensagem enviada por Sigmar Nunes: uma tenda na Esplanada dos Ministérios para abrigar participantes dos atos golpistas, a pedido do chefe.

Na mensagem, Nunes não especificou a quem se destinava o acampamento, mas o deputado Mosquini me deixou claro que a intenção era abrigar seus eleitores ruralistas. No último sábado, 21 de agosto, o Interceptrevelou que latifundiários alinhados a Bolsonaro estão financiando as manifestações marcadas para 7 de setembro, em articulação com políticos ligados ao governo.

Estimulada pelo presidente ao longo das últimas semanas com frases como “estamos sendo sufocados e quem está nos oprimindo é uma minoria”, a extrema direita prepara atos de tom golpista para o feriado da Independência do Brasil. O objetivo é promover a “independência do governo Bolsonaro” e pressionar ministros do STF a recuarem de ações da corte contra Bolsonaro e seus apoiadores da milícia digital. Segundo a Procuradoria-Geral da República, a PGR, há planos de invasão do prédio do Supremo, na Praça dos Três Poderes, localizada num dos extremos da Esplanada.

Mosquini é um político ruralista em seu segundo mandato, que se tornou vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara em setembro de 2020. Questionado sobre o uso da estrutura de seu gabinete para ajudar numa manifestação de caráter golpista, ele não fez rodeios para admitir seu apoio aos ruralistas participantes.

“São grupos de produtores rurais vinculados ao meu mandato lá em Buritis, em Rondônia”, me disse o deputado. “Eles fizeram um pedido para saber onde eles podem acampar, onde podem se instalar. Fiz de forma oficial, solicitei [ao GDF] informações”.

O político tem bom relacionamento com o Planalto e é um dos beneficiados por verbas do Tratoraço, um dos desdobramentos do orçamento secreto, criado pelo governo Bolsonaro para distribuir dinheiro a deputados aliados e revelado pelo Estadão.

“Não incentivei de forma nenhuma [os atos], mas é a minha base aliada lá do estado de Rondônia. O camarada pede uma assessoria para o nosso gabinete perguntando onde eles podem se instalar. Com a minha assessoria ou sem a minha assessoria, eles virão a Brasília. Não acho que estou incentivando, não, mas tenho esse compromisso de atendê-los. Quando vou na cidade deles, eles também me recebem, me atendem”, justificou-se.

A atuação do deputado vai contra o juramento que fez ao tomar posse do mandato, com base no Regimento Interno da Câmara, em que ele prometeu “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro e sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”. O código de ética da Câmara diz, ainda, que é dever dos parlamentares “zelar pelo prestígio, aprimoramento e valorização das instituições democráticas e representativas e pelas prerrogativas do Poder Legislativo”.

Informações sobre protestos e ocupação do espaço público em Brasília ficam disponíveis no portal do GDF, o que torna desnecessária a intermediação de um parlamentar. Ainda assim, Mosquini confirmou que funcionários de seu gabinete, pagos com dinheiro público, enviaram ofício para o GDF, em busca de informações para montar o acampamento. O Distrito Federal é governado por Ibaneis Rocha, do MDB, um bolsonarista arrependido que nos últimos dias assinou uma carta em defesa do STF.

Eu pedi a Mosquini acesso ao documento enviado ao GDF. Durante a entrevista, o deputado prometeu que enviaria o documento, mas não o fez. Reforcei o pedido por WhatsApp, mas não tive retorno.

O político já foi preso em 2014, durante a operação Ludus, do Ministério Público Estadual de Rondônia. Ele era suspeito de fraude em licitação de contratos do Departamento de Estradas e Rodagens, que dirigia à época. A defesa de Mosquini negou irregularidades e considerou que a prisão, que durou 10 dias, “não deve ter passado de algum equívoco”. Ele foi solto por decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Também confirmei que a deputada federal bolsonarista Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, se movimenta para encorpar os atos na capital paulista. Zambelli participa de grupos de WhatsApp que discutem as manifestações, trajetos e equipamentos que serão utilizados no protesto, como caminhões e faixas.

Procurei a assessoria da deputada. Eles não se manifestaram sobre os atos e sua coordenação. Responderam apenas que “Carla Zambelli apoia e participa de atos dos quais ela concorda com a pauta e que sejam pacíficos e democráticos”.

Bolsonaro e Mosquini: o ruralista se tornou vice-líder do governo de extrema direita há um ano, ganhou emendas no orçamento secreto e já foi preso em operação policial.

Foto: Reprodução/Facebook

‘Vamos ficar até o dia que Deus achar que devemos’

A comitiva de cabos eleitorais de Mosquini pretende ir para Brasília com ao menos 150 pessoas, entre elas comerciantes e ruralistas, sem data para voltar para casa. O município de Buritis, de 40 mil habitantes no interior de Rondônia, fica a 2,4 mil km da capital federal.

“Não definimos quantos dias vamos ficar. A gente vai sair daqui, uns três dias antes do dia 7 e chegando aí [em Brasília], vamos ficar até o dia que Deus achar que devemos”, me disse um dos organizadores do grupo, Alexandro Pereira de Oliveira. Foi ele quem pediu ajuda ao deputado Mosquini.

Oliveira é ruralista e eleitor de Mosquini, com quem me disse ter relação de “amigo” há pelo menos quatro anos – ou seja, desde o primeiro mandato do deputado em Brasília. Segundo Oliveira, a comitiva se “autofinancia com doações”. Ele não revelou que valor será gasto com hospedagem, alimentação e deslocamento a Brasília.

Quando perguntei sobre o acampamento, Oliveira desconversou e disse que, apesar de planejar acampamento, o grupo preferiu ficar em uma pousada. “Achamos uma pousadinha com restaurante, que fazem comida para a gente. Porque até agora não tivemos retorno do deputado, achei até que você estava me ligando por acaso disso”, despistou.Governo do Distrito Federal se recusa a informar nomes de quem informou que fará atos no 7 de setembro.

Para ele, o ex-deputado e cantor Sérgio Reis, suspeito de estimular atos de violência, é um “coitadinho” que está sendo “massacrado”. “O que a gente vê está destoando um pouquinho da realidade, por exemplo, esses processos em que o ministro Alexandre [de Moraes] toma uma decisão, em que ele abre o inquérito, é o promotor, é o advogado, é o juiz. A gente vê que isso daí não tem como. Vai parar quando isso daí?”, questionou Oliveira.

Na mira da PGR, estão os ex-deputados Roberto Jefferson, presidente do PTB, que está preso preventivamente – por prazo indeterminado – desde 13 de agosto, Sérgio Reis e o deputado federal Otoni de Paula, do PSC do Rio de Janeiro. Todos são suspeitos de organizar os atos golpistas. Os últimos dois foram alvos de mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que supervisiona a investigação sobre atos contra a democracia e a incitação de violência.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do GDF não informou o nome de quem pediu autorização para realizar as manifestações de 7 de setembro. Em nota, informou que as forças de segurança “atuarão de forma integrada, de acordo com a legislação vigente no país, nas manifestações”. O texto ressaltava que, “assim como em todas as manifestações desse tipo, é feito planejamento prévio, com a participação dos envolvidos, com objetivo de garantir a segurança dos participantes e da população em geral”.

Procurei o assessor parlamentar Sigmar Nunes na tarde de terça-feira, 24 de agosto, via WhatsApp. Ele visualizou as mensagens, mas não as respondeu.

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