Análise: fracassos em série nos Mundiais exigem urgência em mudanças na base do vôlei


 

Os talentos ainda surgem, aqui e ali. Nomes como Ana Cristina e Adriano, por exemplo, fazem com que o Brasil dê sequência à tradição de boas revelações nas quadras. Já faz algum tempo, porém, que os resultados indicam dias de pouco brilho na formação de um dos esportes mais vitoriosos do país. No último domingo, a seleção masculina sub-21 encerrou sua campanha no Mundial da categoria em sétimo lugar. Das quatro competições de base em 2021, nenhum pódio. Números que ligam o alerta e exigem um caminho de mudanças.

O resultado da seleção sub-21 em Carbonia, na Itália, foi o último de uma série de campanhas frustrantes nos Mundiais da base neste ano. Com direito a uma derrota para a Bélgica na disputa pelo quinto lugar, o time comandando por Giovane Gávio ficou longe do pódio mesmo com nomes como Adriano, campeão sul-americano com a seleção principal, Arthur Bento e Darlan. No sub-19, em setembro, no Irã, outro sétimo lugar.


Entre as mulheres, o panorama não foi muito diferente. A seleção sub-18 conseguiu o melhor resultado, com um quinto lugar na disputa em Durango, no México. Na categoria sub-20, a equipe brasileira também terminou longe do pódio, com o sétimo lugar no campeonato disputado na Bélgica e na Holanda. Muito pouco para um país que se acostumou a dominar as disputas na base até pouco tempo atrás.

Os bons resultados minguaram nos últimos anos. Na base, os Mundiais são disputados a cada dois anos. Desde 2015, o Brasil soma apenas três pódios em 16 competições, nenhum título. Foi vice-campeão com a seleção feminina sub-20 em 2015. Em 2019, foram dois bronzes, com os homens no sub-21 e as mulheres no sub-18. E só.

Na história dos Mundiais, o Brasil soma 42 medalhas. Lidera o quadro de conquistas no sub-19 masculino e no sub-20 feminino, com seis ouros em cada naipe. No total, são 15 títulos - dois deles em Mundiais sub-23, disputados somente entre 2013 e 2017. Mas, entre as categorias em disputa até hoje, a seleção não ganha um título desde 2009, quando foi campeão sub-18 com as mulheres e sub-21 com os homens.

A lista de problemas é longa e antiga. No país, são poucos os times com um trabalho forte na categoria de base. A ausência de competições e de um maior número de peneiras também ajuda a explicar os resultados dos últimos anos. A pandemia do coronavírus, claro, também atrapalhou a preparação para os Mundiais deste ano. Mas não serve de desculpa.

Revelada pelo Club Italia, Paola Egonu é, hoje, uma das melhores do mundo — Foto: Divulgação/FIVB

Revelada pelo Club Italia, Paola Egonu é, hoje, uma das melhores do mundo — Foto: Divulgação/FIVB

Em 1998, quando era diretor da Federação Italiana de Vôlei, o argentino Julio Velasco criou o Club Italia. Queria melhorar o desenvolvimento da base do vôlei feminino, que passava por resultados abaixo do esperado na época. A equipe, comandada pela entidade nacional, se transformou em referência de trabalho com jovens jogadoras. Revelou, por exemplo, Paola Egonu, uma das melhores jogadoras da atualidade.

A Itália, aliás, talvez sirva de referência diante da necessidade de mudanças. O país tem investido cada vez mais no desenvolvimento de jovens jogadores. Nos Mundiais deste ano, foram três pódios, com dois títulos e um vice-campeonato.

Trabalho de Zé Roberto no Barueri rende frutos à seleção — Foto: Gaspar Nóbrega/Inovafoto

Trabalho de Zé Roberto no Barueri rende frutos à seleção — Foto: Gaspar Nóbrega/Inovafoto

No Brasil, José Roberto Guimarães tenta fazer um trabalho parecido com o Club Italia no Barueri. Nos últimos anos, conseguiu bons resultados ao investir em jovens jogadoras e fez frente a times com um orçamento muito maior. Mas, ao tirar dinheiro do próprio bolso para lutar por dias melhores na seleção adulta, vê o projeto se tornar mais inviável a cada ano. O esforço solitário do treinador não é a solução. É preciso de apoio, de estrutura e de iniciativas por parte da Confederação Brasileira de Vôlei.

Diante dos resultados, é preciso mudar. A medalha de prata do vôlei feminino em Tóquio pode disfarçar problemas urgentes que a ausência de um lugar no pódio masculino escancara. A preocupação imediata com o ciclo para Paris é óbvia, mas é preciso ver além para que um histórico de conquistas não se desmanche em Los Angeles 2028 e Brisbane 2032.


Fonte:ge

Postar um comentário

0 Comentários