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Entrevistão: Lênin Franco, o atacante da diretoria do Botafogo

 


Diretor de negócios do clube explica ausência de patrocínio máster, necessidade de definição sobre fornecedor de material esportivo e muito mais


O Botafogo mudou desde a chegada de Lênin Franco. Diretor de negócios desde julho deste ano, ele já tem deixado sua marca nas questões envolvendo uma das maiores dificuldades do clube na temporada: a busca por dinheiro novo. Tido pelo CEO Jorge Braga como o atacante do time da diretoria, Lênin é o responsável por colocar em prática mudanças substanciais na forma como o Botafogo lida com negócios. Guardadas as devidas proporções, ele faz algo semelhante ao que seu xará realizou na União Soviética em março de 1921 quando transformou a política econômica do país.

A comparação não é para ser levada ao pé da letra, mas Lênin Franco tem como objetivo mudar a cultura interna no departamento comercial e também passar a valorizar mais a marca do Botafogo. Essa ideia é justamente o que está por trás de o time alvinegro não ter um patrocinador máster na camisa. Em conversa com o ge que durou cerca de uma hora, o diretor comentou que, às vezes, não ter dinheiro é melhor do que qualquer dinheiro. Recentemente, o Botafogo recusou um patrocínio de R$ 200 mil por achar que o preço não era condizente com o valor do espaço pretendido na camisa.

- Vou fazer uma analogia que as pessoas costumam fazer, mas não funciona com gestão de marca que é o avião quando voa com a poltrona vazia. Voar com a poltrona vazia é prejuízo para a empresa. Nesse caso é porque ele tem um custo fixo que precisa para voar. Se não vende a poltrona ele não cobre o custo e já voou no prejuízo. Só que quando você fala de gestão de marca você tem prejuízos que podem ser a curto, médio ou longo prazo. A gente recebeu uma proposta pro máster que era o equivalente ao valor de manga.
- Eu não posso abrir mão de um espaço tão valioso por conta de qualquer dinheiro porque isso é ruim para o próprio clube. Não à toa a gente não fechou e passado um mês a gente fechou com outra empresa com valor maior. Acho que muito do Botafogo ficar esse tempo todo sem patrocínio máster é reflexo pelo o que fez lá atrás de entregar as coisas sem fazer conta, de não entregar o que prometia e esse trabalho que a gente faz agora é justamente de recuperar isso, fazer o mercado entender que existem pessoas que estão preocupadas em fazer entregas interessantes. Nosso papel não é só de trazer receita mas é também de ser guardião da marca. E uma das maneiras de ser guardião da marca é dar o devido valor a ela.

Um dos assuntos mais urgentes para o diretor de negócios é a definição sobre qual vai ser o fornecedor de material esportivo para a próxima temporada. O contrato com a Kappa termina em dezembro deste ano e o clube está no limite do tempo para definir, já que precisa ter um novo uniforme a partir de janeiro de 2022. Lênin é entusiasta da possibilidade de ter uma marca própria porque isso dá um aumento de duas a três vezes nas receitas do clube. Porém, exige uma estrutura difícil de ser implementada em cerca de dois meses. Segundo ele, essa possibilidade só será levada adiante se não houver nenhuma proposta na mesa.

- Se eu tenho uma proposta de uma empresa em que ela tem uma vantagem financeira a curto prazo para o Botafogo, tendo a entender que é a melhor situação, hoje, para a gente. Acho que a marca própria é muito vantajosa. Sou muito apaixonado pela ideia de marca própria. Acho que existe ainda uma percepção e um senso comum muito distorcido do projeto de marca própria, mas que é algo que a gente pode ir mostrando para o torcedor aos poucos. Porém, para eu ir para a marca própria, hoje, é só se não tiver nenhuma proposta na mão.

O trabalho de Lênin no Bahia foi a principal credencial para chegar ao Botafogo. Ele passou oito anos trabalhando no clube que era torcedor quando criança e é possível observar semelhanças nos dois clubes. Enquanto esteve em Salvador, Lênin fez parte do trabalho de reconstrução do clube tricolor que, segundo ele, foi dividido em três etapas. A comparação que gosta de fazer é como se pegassem um terreno baldio. Primeiro, foi necessário capinar e fazer a terraplanagem (2013). Em seguida, pôde-se plantar (2014-2017). Para, atualmente, colher e vender (2018-). Na concepção dele, o Botafogo passa pelas duas primeiras fases simultaneamente.

Porém, há uma diferença histórica e cultural. No Bahia, a demanda por democracia existia há mais de 30 anos, até que Fernando Schmidt foi eleito em 2013 para um mandato-tampão. No caso do Botafogo, o trabalho de profissionalização se dá após anos de uma cultura paternalista que ele e a diretoria atual tentam mudar.

- Antigos dirigentes ou personalidades sempre estiveram perto para poder socorrer. Isso virava uma muleta para o clube. Bateu o desespero? Chama o fulano para ajudar. Isso não criava musculatura para poder resolver com as próprias pernas depois. Essa cultura não tinha lá então isso é ainda algo que é muito diferente que é o que estamos tentando quebrar. O que dizemos a essas pessoas que continuam ajudando é que não é para ser mais ajuda é para ser negócio. Se você quer trazer algo para cá, beleza. Traz e a gente vai ver o que podemos entregar como propriedade comercial para que isso seja um negócio de fato e que os dois lados estejam ganhando.

Quem é Lênin Franco

Filho de Jussara, ex-dona de casa e atualmente empreendedora, e Edmundo, professor de história, Lênin tem esse nome naturalmente por causa do líder soviético. O pai era bastante engajado em movimento político, fez parte de movimento estudantil, lutou contra a ditadura militar no Brasil e nomeou o outro filho em homenagem a Allende, ex-presidente chileno morto em decorrência do Golpe de Estado que instaurou a ditadura de Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973.

Mas a influência do pai não está só no nome de Lênin Franco. Envolvido com questões políticas do Esporte Clube Bahia desde os anos 80, seu Edmundo foi um dos fundadores do primeiro grupo de oposição a Paulo Maracajá, que presidiu o clube entre 1979 e 1994. É importante citar a relação do pai de Lênin com o Bahia porque essa foi uma das razões para duas mudanças na vida dele. Nascido em Salvador, Lênin chegou a tentar ser jogador de futebol, mas foi na faculdade de publicidade que acabou entrando no meio.

Profissionalmente, o caminho do diretor de negócios do Botafogo começou na Federação Baiana de Futebol, então comandada pelo atual presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues. Depois do período, Lênin se mudou para São Paulo para trabalhar como scout e olheiro de um empresário europeu que atuava principalmente na Bélgica e Holanda. Foi então que voltou a Salvador. Ao saber que seu Edmundo teve um câncer diagnosticado, Lênin largou o emprego e retornou para a cidade natal para passar os últimos dias com o pai.

Por lá, trabalhou numa universidade e criou uma WebTV de torcedor, algo como são os canais de clubes hoje em dia. Por causa desse trabalho e do bom trânsito que o pai tinha entre a diretoria tricolor que assumiu em 2013 após uma intervenção judicial, Lênin passou a trabalhar na comunicação do Bahia. Por lá ficou até o primeiro semestre desse ano, até que pegou Covid em abril e foi internado.

Ao receber alta, foi a vez de ele ver a esposa ser internada no dia seguinte que voltou pra casa. Os dois ficaram bem, mas até hoje Lênin sofre com sequelas como taquicardia e falta de ar em momentos aleatórios. Passado o susto inicial, ele colocou na cabeça que precisava mudar alguma coisa na própria vida. Pouco tempo depois chegou a proposta do Botafogo, além uma do Santos e de uma empresa de consultoria. E assim ele veio para o Rio de Janeiro. Foi mais uma vez que experiência de proximidade com a morte alterou os rumos profissionais do diretor de negócios do Botafogo.

- Mudou totalmente minha percepção de mundo. Sou uma pessoa muito ligada à família, principalmente minha esposa e meu filho. O fato de ter chegado muito perto de partir me deixou com a sensação de que tinha que cumprir algo diferente para a minha vida senão estaria incompleto. Agora, o que era esse diferente eu não fazia ideia. Tipo, vou raspar a cabeça, tirar a barba. Não sabia o que tinha que ser, mas algo me dizia que era em relação à vida pessoal/profissional porque minha família está em Salvador e eu estou sozinho aqui no Rio. É algo que ainda me dói bastante. Mas essa mudança de chave foi muito de quando enxerga que a vida é um sopro, sabe? O principal era dar uma segurança maior à família caso eu tivesse ido.

Fonte: ge

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